A forma como percebemos a luz varia de acordo com nossas experiências e memórias. Um habitante do deserto não vivencia diariamente a luz filtrada pelas folhas de uma árvore, da mesma forma que um habitante da floresta não experimenta o brilho cintilante do mar. Nossa experiência com a luz está enraizada nos lugares com os quais estamos familiarizados, ou na capacidade de lembrar e imaginar diferentes cenários. A percepção, memória e imaginação desempenham papel fundamental na configuração da nossa experiência com a luz (MILLET, 1996).
Richard Kelly (1910–1977) foi um dos pioneiros do lighting design arquitetônico nos Estados Unidos — vindo de uma formação em iluminação de teatro, ele trabalhou ao lado de arquitetos como Mies van der Rohe, Philip Johnson e Louis Kahn, e assinou a iluminação de projetos como o Seagram Building, um dos marcos da arquitetura moderna. Foi dessa experiência prática, aplicando à arquitetura uma sensibilidade de palco, que Kelly (2010) categorizou três tipos de luz para o projeto:
O “brilho focal” é exemplificado pela luz natural que entra por uma janela, iluminando uma cadeira de leitura favorita ou uma fogueira — esse tipo de luz atrai a atenção e desperta o interesse.
A “luminescência ambiente” pode ser encontrada em um ambiente com teto translúcido, uma manhã nevada em um campo aberto ou uma sala branca com uma claraboia difusa ao meio-dia — esse tipo de luz suaviza a importância de elementos específicos, proporcionando uma sensação de liberdade e amplitude.
Por fim, o “jogo de cintilações” é a magia da luz: a luz do sol refletida em águas em movimento, o efeito criado por milhares de chamas de velas ou a Times Square à noite — esse tipo de luz desperta sensações, podendo ser uma distração ou proporcionar diversão. Essas são reflexões metafóricas sobre a luz que vão além das métricas e conferem um significado especial ao usuário no projeto.
A luz desempenha papel fundamental não apenas ao fornecer condições para atividades visuais, mas também ao enriquecer nossa experiência (conforme mencionado nos Objetivos do Projeto Daylighting). Nossas experiências com a luz são influenciadas pelo local em que estamos e pela nossa cultura. Em seu livro, Junichiro Tanizaki (2017) explora a preferência tradicional do povo japonês pelas sombras:

Millet (1996) explora as influências culturais nas habitações tradicionais ao destacar exemplos como os painéis de shoji nas casas japonesas. Esses painéis são projetados para proporcionar conforto durante o verão quente e úmido, transmitindo uma luz suave que cria um ambiente sombreado.
Em algumas cidades da Holanda, onde a terra é preciosa devido à abundância de água, os lotes de terreno são estreitos e profundos. Isso resulta em edifícios que compartilham paredes laterais e possuem aberturas apenas nas extremidades frontal e traseira. Como resposta a esse contexto, as extraordinariamente grandes janelas são uma busca pela luz em um clima nórdico, dominando a maior área possível das fachadas.
Na Itália, as janelas com varandas são justificadas pelo clima favorável e pelos costumes sociais, permitindo conversas com amigos e familiares na rua. Além disso, o uso de venezianas como proteção contra a luz solar e o calor, ao mesmo tempo em que permite a ventilação, resulta em um ambiente interno mais escuro, transmitindo a sensação de frescor.
Ao projetar as aberturas, percebe-se que há a oportunidade de ir além de simplesmente permitir a entrada de luz ou oferecer uma vista ao usuário. As janelas revelam o caráter das pessoas, do edifício, seus materiais e métodos. Nesse sentido, é importante questionar: qual é a experiência do espaço que estou projetando de acordo com a nossa cultura? Se o objetivo é despertar certos sentimentos e prazeres no usuário, como podemos fazer isso de maneira delicada, levando em consideração suas experiências anteriores?
***
Navegue pelo Pinterest para desenvolvimento de repertório:
