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009. Aprender a ver

Aprender a ver — a percepção da luz não se limita apenas aos nossos sentidos, mas também envolve a alma. A luz carrega consigo uma ampla gama de sentimentos: é uma metáfora para o conhecimento, desempenha papel fundamental no trabalho, é ferramenta para manipular emoções e representa energia, entre tantos outros significados. Além disso, a luz define culturas e revela a essência da arquitetura.

Howard Brandston (1935–2023), autor da citação que abre este parâmetro, foi um dos lighting designers mais influentes do século XX — responsável, entre outros marcos, pela reiluminação da Estátua da Liberdade em 1986, e por décadas dedicado ao ensino da profissão em universidades como Cooper Union e Rensselaer Polytechnic Institute. Não é por acaso que um profissional com essa trajetória tenha dedicado um livro inteiro ao tema: para ele, a característica mais simples e, ao mesmo tempo, o maior mistério da iluminação é o “processo de aprender a ver“.

Esse processo envolve o registro mental das nossas emoções e reações diante das cenas que presenciamos. É essencial que o profissional da iluminação seja capaz de realmente enxergar o que está diante dos olhos, a fim de apreciar, recordar e registrar — para isso, é necessário ir além de simplesmente olhar.

Quando abrimos os olhos, adentramos um mundo repleto de cores, texturas, formas e movimentos. A visão é um processo que requer a ocupação do cérebro: é necessário desenvolver a capacidade de memória, lembrar-se de lugares e situações, sem descartar ideias, cenas ou experiências. É importante registrar essas memórias por meio de anotações ou croquis antes que sejam esquecidas — ao compreender e registrar essas experiências, tornamo-nos capazes de recriá-las, aprimorá-las e, eventualmente, transcendê-las.

Na prática, isso significa transformar observação em hábito. Um exercício simples e eficaz é carregar sempre um caderno de croqui — físico ou digital — e registrar, mesmo que em poucos traços, situações de luz que chamem atenção no dia a dia: o reflexo do sol da tarde numa vitrine, a sombra projetada por uma treliça, o contraste entre uma sala e o corredor ao lado. Não é preciso desenho técnico ou talento artístico — o objetivo é treinar o olho a notar o que a maioria das pessoas simplesmente atravessa sem ver. Com o tempo, esse repertório visual se torna um banco de referências pessoal, que o profissional pode acessar mentalmente na hora de tomar decisões de projeto.

Compreender o contexto em que nos inserimos, a cultura, assim como a resposta humana em relação à escala, são elementos essenciais para entender como as pessoas reagem ao espaço. Devemos observar as sensações como usuários do ambiente e, para isso, é interessante se familiarizar com os conceitos de percepção do espaço e necessidades biológicas, discutidos nos parâmetros anteriores.

O processo de iluminação envolve uma série de experiências planejadas que englobam pessoas e espaços — nenhum projeto de luz existe no vácuo, isolado de quem vai realmente ocupar aquele ambiente. Por isso, ao esboçar uma ideia, vale desenhar a cena completa, e não apenas a arquitetura: uma pessoa lendo, atravessando um corredor, sentada à mesa de trabalho. A figura humana no croqui não é só um recurso de escala — ela obriga o profissional a pensar em altura dos olhos, ângulo de visão e nível de conforto de quem está ali, em vez de avaliar a luz apenas pela composição formal do espaço.

É importante incluir pessoas em todos os croquis, pois elas nos lembrarão de considerar a iluminação em relação a elas!

Construir esse repertório é também o que prepara o terreno para os próximos parâmetros desta série — Criatividade, Luz revelando materiais e Luz revelando formas — que dependem diretamente da capacidade de observação treinada aqui.

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Referência:

BRANDSTON, H. Aprender a ver: a essência do design da iluminação. São Paulo, SP: De Maio Comunicação e Editora, 2010.

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