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002. O Projeto Daylighting

Conforme mencionado no parâmetro Sol (001), não basta ter luz solar disponível — é essencial usá-la de forma consciente no projeto. É para isso que propomos a metodologia do Projeto Daylighting.

O Projeto Daylighting é um processo de projeto que prioriza o uso da iluminação natural desde as primeiras decisões, e não como um ajuste posterior. Ele envolve uma análise minuciosa das condições climáticas e da orientação solar do edifício, a escolha de materiais e acabamentos que permitam um aproveitamento adequado da luz, e a criação de espaços que maximizem o uso da iluminação natural disponível ao longo do dia e do ano.

A iluminação natural é um aspecto fascinante do projeto justamente porque nele se entrelaçam fatores ambientais, estéticos e humanos — raramente uma decisão de projeto atende só a um desses eixos isoladamente. O Projeto Daylighting propõe que essa tríade seja integrada durante todo o processo, não resolvida em etapas separadas. Embora as questões ambientais sejam fundamentais — afinal, é delas que vem a eficiência energética tantas vezes buscada —, ignorar as considerações arquitetônicas e humanas torna o processo incompleto, por melhor que seja o desempenho técnico alcançado.

Isso tem uma consequência prática importante: as recomendações de quantidade de luz podem ser inadequadas quando aplicadas de forma isolada. O aumento do nível de iluminação nem sempre resulta em um ambiente mais agradável, confortável ou seguro — às vezes, resulta no oposto. O nível de iluminação adequado pode ser determinado por exigências normativas, mas também é, com a mesma legitimidade, uma questão de intenção de projeto.

Assim, a iluminação desempenha um papel crucial no processo de projeto de edifícios: é um recurso essencial para a criação de ambientes de alta qualidade, que atendam plenamente às necessidades humanas, estéticas e ambientais — não apenas às métricas de conformidade normativa.

Boyce e Mcibse (2006) classificam a prática de iluminação em três níveis de qualidade, que ajudam a situar onde o Projeto Daylighting quer chegar. As más práticas produzem iluminação que não permite enxergar com facilidade o que precisa ser visto, ou que causa desconforto visual — geralmente resultado de ignorar orientações básicas, de concentrar-se excessivamente em um único critério em detrimento dos demais, ou da crença equivocada de que eficiência energética é sinônimo de boa iluminação.

As práticas indiferentes resolvem o problema técnico — permitem ver bem, sem desconforto —, mas não fazem nada para elevar a experiência do espaço; são orientação quantitativa aplicada sem reflexão, o tipo de solução que poderia ter saído direto de um software sem intervenção humana. Já as boas práticas combinam iluminação e arquitetura com sensibilidade ao tempo e ao lugar: aplicam a orientação técnica com cuidado, mas não se rendem servilmente aos critérios quantitativos — e é exatamente esse equilíbrio que o Projeto Daylighting busca viabilizar.

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O Projeto Daylighting se desenrola em três fases, e cada uma delas dialoga diretamente com as escalas de projeto que estruturam esta ferramenta. A primeira fase, de análise do clima e do local, corresponde às escalas Urbano e Entorno: é aqui que se compreende como o desenho urbano e as edificações vizinhas condicionam o acesso à luz solar, apoiado pelo estudo da Carta Solar (104).

A segunda fase, de desenvolvimento do projeto, está ancorada na escala do Edifício: é o momento de definir a volumetria — forma e planta baixa (301), pátios (304) e espaços de transição (312) —, posicionar e dimensionar as aberturas — laterais (302), zenitais (303) e voltadas à otimização de vistas (310) —, calcular o mascaramento entre o edifício e seu entorno, e definir os dispositivos de sombreamento (308) necessários.

Por fim, a terceira fase volta-se aos ambientes internos, cobrindo as escalas de Interiores e Mobiliário. Aqui, o projeto passa a responder às necessidades biológicas (008) dos usuários e à hierarquia luminosa (401) dos espaços, definindo como a luz natural, já trazida para dentro do edifício nas fases anteriores, é efetivamente distribuída e utilizada no dia a dia de quem ocupa o espaço.

O diagrama abaixo resume essa sequência, com os parâmetros de projeto vinculados a cada fase:

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Referências:

BOYCE, P R; MCIBSE, F. Education: the key to the future of lighting practice: The Trotter-Paterson memorial lecture presented to the Society of Light and Lighting, London, 21 February 2006. Lighting Research & Technology, v. 38, n. 4, p. 283–291, 1 dez. 2006. https://doi.org/10.1177/1477153506071330.

GUZOWSKI, M. Daylighting for Sustainable Design. 1 edition. New York: McGraw-Hill Professional, 1999.

LAM, W. M. C. Perception and Lighting as Formgivers for Architecture. 1St Edition edition. New York: McGraw-Hill Inc.,US, 1977.

LAM, W. M. C. Sunlighting As Formgiver for Architecture. 1St Edition edition. New York: Van Nostrand Reinhold, 1986.

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