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205. Vegetação

A vegetação desempenha um papel fundamental na criação de microclimas: melhora a qualidade e a umidade do ar, reduz os efeitos da ilha de calor e proporciona conforto térmico ao entorno construído. Além disso, ajuda a reduzir a poluição sonora e contribui para a criação de hierarquia luminosa e de paisagens que conectam o ambiente interno e externo.

Vegetação e sombreamento das aberturas

As aberturas laterais dos edifícios podem ser obstruídas facilmente por edifícios vizinhos ou por árvores — mas, diferente de uma edificação vizinha, a vegetação pode ser uma obstrução deliberada e ajustável ao longo do ano. Para lidar com a necessidade de sombreamento variável, é possível utilizar espécies caducas, que perdem as folhas na estação fria: elas permitem que a luz solar alcance o edifício quando desejado — no inverno, quando o sol é bem-vindo — e oferecem sombreamento quando a luz solar é indesejável — no verão, quando as folhas estão cheias.

Uma estratégia mais eficaz no térreo do que em altura

É importante notar que o sombreamento por vegetação funciona melhor em construções térreas ou de poucos pavimentos, onde a copa das árvores efetivamente alcança e cobre as aberturas. Para edifícios mais altos, o sombreamento por vegetação pode ser ineficiente em alguns andares — aqueles acima da copa — e excessivo em outros, mais próximos ao nível do solo. Isso torna a vegetação uma estratégia que deve ser dimensionada em conjunto com o gabarito do edifício, e não aplicada de forma genérica em todos os pavimentos.

A eficácia da vegetação como estratégia de sombreamento também depende do tecido urbano ao redor: em quadras mais adensadas, com pouco espaço livre entre os lotes, pode não haver área suficiente para o porte de árvores que efetivamente sombreiem uma fachada inteira, restando apenas soluções de menor porte, como arbustos ou vegetação em jardineiras. Em tecidos urbanos mais abertos, com recuos generosos, o espaço disponível permite espécies de maior porte e copa mais ampla, com impacto proporcionalmente maior sobre o sombreamento das aberturas.


Luz filtrada como qualidade, não só limitação

Uma vantagem do sombreamento com vegetação, em comparação com coberturas mais pesadas e opacas, é que a luz é filtrada pela folhagem, não sendo completamente bloqueada — o que cria o efeito conhecido como luz filtrada: um padrão de luz e sombra em constante movimento, com qualidade difusa e menos abrupta do que a sombra projetada por um elemento sólido. Esse efeito também muda ao longo do ano, acompanhando o ciclo da própria vegetação, o que introduz uma variabilidade sazonal difícil de replicar com dispositivos de sombreamento fixos.

A escolha das espécies também deve responder ao clima local, não apenas à necessidade de sombreamento variável: em climas quentes e úmidos ao longo de todo o ano, onde não há uma estação fria que justifique a perda de folhas, espécies perenes tendem a ser mais adequadas, desde que combinadas com outras estratégias de ventilação. Já em climas com inverno bem definido e desejo de ganho solar nessa estação, as espécies caducas continuam sendo a escolha mais eficiente.

Vale considerar, ainda, que árvores de grande porte plantadas muito próximas às fachadas podem, com o tempo, comprometer a estrutura da edificação ou de calçadas — o planejamento do distanciamento entre a vegetação e a construção deveria acompanhar o crescimento esperado da espécie, não apenas seu porte no momento do plantio.

Recomendações práticas

Considerar a luz filtrada como um efeito de projeto, não um efeito colateral. O padrão de luz e sombra criado pela folhagem pode ser incorporado deliberadamente ao desenho dos ambientes internos voltados para a vegetação.

Escolher espécies caducas quando o sombreamento precisa variar por estação. Elas resolvem, de forma passiva, o conflito entre desejar sol no inverno e sombra no verão.

Dimensionar a vegetação pela altura real de alcance da copa. Em edifícios de mais de dois ou três pavimentos, a vegetação sozinha não sombreia os andares superiores — outras estratégias de sombreamento precisam entrar em conjunto.

Referências:

LAM, W. Sunlighting As Formgiver for Architecture. 1St Edition edition. New York: Van Nostrand Reinhold, 1986.

ROMERO, M. Princípios Bioclimáticos Para o Desenho Urbano. 1a edição. [S. l.]: Editora UnB, 2013.

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