Luz e materiais possuem uma relação intrínseca na arquitetura. Os materiais desempenham papel fundamental na quantidade e qualidade da luz presente no ambiente. O acabamento e a cor dos materiais são características essenciais nesse contexto. Superfícies refletoras, como objetos de cristal, refletem a luz de maneira espelhada, enquanto superfícies mais opacas, como pedras naturais, madeira e gesso, refletem a luz difusamente, em todas as direções — essa é a mesma lógica de refletância e especularidade discutida na escala do Entorno, só que aplicada aqui aos materiais internos do edifício.
Entre os três aspectos da cor — matiz, valor e intensidade —, é o valor que determina a quantidade de luz absorvida e refletida. Uma superfície branca reflete aproximadamente 82% da luz incidente, uma parede amarelo-claro reflete 78%, e uma superfície verde-escura ou azul, apenas 7%. Superfícies coloridas também transmitem parte de sua tonalidade à luz refletida. Uma mudança nas cores pode alterar completamente a percepção de um ambiente — a variação das superfícies com cores mais claras ou mais escuras é uma estratégia de baixo custo para influenciar o resultado final da distribuição da iluminação de um espaço.
O uso de superfícies escuras resultará em um ambiente geralmente mais sombrio, tanto durante o dia quanto à noite. No entanto, ao optar por superfícies brancas, o efeito será influenciado pelas fontes de luz utilizadas — esse efeito pode ser explorado de forma intencional no projeto. Um exemplo célebre é a capela de Notre-Dame du Haut, em Ronchamp, projetada por Le Corbusier e concluída em 1955: as superfícies interiores são brancas, mas, devido à quantidade limitada de luz natural que entra no espaço através das pequenas aberturas coloridas da fachada sul, essas superfícies são percebidas com uma variação de tons, indo do verde escuro ao verde claro.

Essa relação é recíproca: os materiais definem como a luz se comporta em um ambiente — refletindo, absorvindo ou transmitindo —, e é a própria luz que revela a textura, a cor e o significado de cada material. Escolher um material nunca é uma decisão isolada de acabamento: é também escolher, com antecedência, como a luz natural vai se comportar naquele espaço.
Luz enfatizando materiais
Os materiais desempenham papel emocionalmente importante — o brilho do vidro, o cintilar dos mosaicos de ouro, as tonalidades da madeira — e carregam significados culturais e memórias individuais. A iluminação é um jogo de luz e sombra que revela as texturas do ambiente.
Geralmente, os materiais esmaltados (superfícies envidraçadas) não são o foco principal em um espaço. No entanto, materiais esmaltados especiais, como finos pedaços de pedras, podem ser destacados devido à forma como transmitem a luz, criando efeitos surpreendentes.
Millet (1996) apresenta várias estratégias de composição de luz e materiais. Um exemplo é a Casa Batlló, em Barcelona — projetada por Antoni Gaudí e reformada entre 1904 e 1906 —, onde um poço central de luz é revestido com azulejos em gradiente de cores do azul ao off-white à medida que se aproxima do chão. Essa configuração permite que a parte inferior, com menos luz, se harmonize com o uso de um material mais claro. Você pode encontrar mais informações e imagens no link do Pinterest abaixo.
Até mesmo os materiais utilizados nos acessórios de iluminação elétrica devem ser escolhidos com intenção. Eles podem se camuflar ou se destacar no ambiente, dependendo da iluminação natural presente — a escolha de materiais, portanto, não termina no revestimento das paredes: ela continua até o último detalhe do projeto luminotécnico.
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